Meu irmão, com os olhos vermelhos e intrigados retruca “Eu faço uma aposta com você! Eu faço uma aposta! O apartamento de Madureira você comprou com a viagem, mas gastou com a reforma do outro apartamento que compraste em Jacarépaguá. O terreno foi comprado com a venda do telefone governamental que você tinha, quando morava na asa norte, na época! Eu tinha 11 anos mas me lembro de tudo!”. Meu pai puto da vida, informa que não foi desse jeito e que ele tinha usado a grana de Madureira para comprar o terreno. Por fim, meu irmão chama minha mãe para tirar a dúvida e ver quem ganhara a aposta.

Meu amor incondicional disse que meu pai comprou o terreno com o dinheiro da venda do telefone governamental e, também, com a venda de um carro, o prêmio. Meu irmão, em tom irônico, exaltado, começou a gritar “Acabei de ganhar mil reais! É assim que eu gosto de fazer apostas! Com pessoas fracas! Seu fraco!”.
A única coisa que todos fizeram foi rir, acharam graça. Eu não fiz nada a não ser prestar atenção naquela história tão interessante da vida dos meus pais. Da vida que existia antes da minha existência. Fiquei entusiasmado e pedi para meus pais contarem mais detalhes dessa trajetória.
Outra coisa muito interessante que eu descobri esses dias num baú velho que estava no porão de casa, foi um álbum de recortes de jornais e fotografias da época em que meu pai jogava futebol. Anos 70! Quanto orgulho! Meu pai jogava futebol e saia nas primeiras páginas dos jornais... minha mãe, com certeza era Primeira Dama – sentava na cadeira, embaixo de uma sombra na área vip e fumava sua cigarrilha... hahaha! Não, isso é só idéia da minha cabeça por não terem fotos da minha mãe na época.
Enfim, a vida está acontecendo à todo tempo. Não podemos esquecer que antes das ações que concretizamos, tem-se mais um milhão de outras que a influenciam. E assim a vida cria seu brilho. Nós continuamos do ponto de onde nossos pais param. Não podemos começar um livro pelo primeiro capítulo, sem escrever ao menos uma introdução. Ontem aqui, amanhã não se sabe. Vivamos o agora antes que o dia acabe, mas sem deixar de registrar. Outras pessoas podem continuar nossos textos.
Anos 70, cara! A cúpula chamava aquilo de "marginalidade". Surviver total.




